
Na prática tradicional da profissão, o designer é contratado para resolver questões propostas por clientes. Uma alternativa a esse modelo são os projetos de livre iniciativa, nos quais o designer é o seu próprio cliente: inventa produtos ou soluções para problemas que o preocupam e, só então, oferece-os ao mercado. Ou seja, o termo empreendedorismo aplicado ao design não significa necessariamente administrar um grande escritório.
Essa inversão do modelo tradicional, em que o designer não espera ser solicitado para fazer a “embalagem” de coisas pré-definidas, mas é ativo no empreendimento de novos conteúdos é o tema do curso de pós-graduação O designer como autor, dirigido por Lita Talarico e Steven Heller, na School of Visual Arts (SVA) de Nova York. Lita Talarico esteve em São Paulo participando da Brazil Design Week, no fórum Políticas de ensino em design: a universidade e a realidade do mercado, onde mostrou alguns projetos criados por alunos da SVA e também uma seleção de trabalhos de designers profissionais que, do seu ponto de vista, são empreendedores. As ideias apresentadas fazem parte do seu livro The design entrepreneur: turning graphic design into goods that sell, publicado em 2008 pela Rockport Publishers.
Artes e ofícios
Criar e produzir objetos para o mercado não é uma novidade. No final do século XIX, artesãos do movimento Arts and Crafts liderados por William Morris manufaturavam uma gama extensa de itens – móveis, livros, tipografias, tecidos etc. – em reação aos problemas morais e sociais gerados pela industrialização. Inspirado por John Ruskin, Morris propunha a retomada da união entre as artes e os ofícios, a fim de superar a mediocridade dos produtos industrializados e o isolamento do artista em relação à produção.
Atualmente, diversos fatores podem justificar essa tendência ao empreendedorismo. Ellen Lupton, uma das profissionais retratadas no livro The design entrepreneur, ressalta que as transformações ocorridas no campo do design gráfico após a popularização do uso do computador na década de 1990 – com amadores tomando uma parte do mercado e o crescente interesse do público não-especializado em tudo que diz respeito a design – fez com que os profissionais fossem obrigados a repensar a sua atuação.
A atuação propositiva no campo do design hoje é bastante eclética. A seleção dos profissionais retratados no livro mostra diversas facetas do que significa ser um “designer empreendedor”, na visão de Talarico e Heller. Destacam-se exemplos de:
– Ilustradores-autores como Seymour Chwast, Maira Kalman e Christoph Niemann;
– Designers que aplicam elementos gráficos em produtos, como Charles Spencer Anderson;
– Designers industriais, como Yves Behar;
– Fundidoras de fontes digitais, como a T26, de Carlos Segura;
– Agentes ligados à divulgação do design, à educação e à transformação social, como UnderConsideration, Ellen Lupton e Winterhouse.
A alternativa empreendedora, de acordo com Lita Talarico, oferece ao designer não apenas novas e diversificadas oportunidades financeiras, como principalmente lhe traz a recompensa de ser o autor da obra completa, em vez de submeter projetos visuais a objetivos e conteúdos com os quais pode discordar. Além disso, o impulso criativo que não é acolhido no ambiente corporativo pode tornar-se realidade em um projeto próprio.

Design: Maira Kalman

Design: Charles Spencer Anderson
Alunos engajados na transformação social
O direcionamento pedagógico do curso O designer como autor enfatiza projetos em que o design ajuda a promover algum tipo de transformação positiva na sociedade. O caso de maior sucesso do curso até hoje é um sistema de embalagens de medicamentos criado pela aluna Deborah Adler, em 2002. A aluna percebeu uma falha na comunicação visual dos remédios manipulados em farmácias: rótulos com informações confusas causam graves problemas a pessoas idosas, que tomam a medicação de forma errada.


Target ClearRx · Design: Deborah Adler
Adler fez desse problema o desafio do seu trabalho de conclusão do curso. Posteriormente, em 2005, o projeto foi comprado e implantado em larga escala pela Target Pharmacy, sob o nome de ClearRx. No sistema ClearRx, o emprego da cor vermelha nos frascos atribui uma identidade forte às embalagens – como uma assinatura da Target (cuja marca também é vermelha). A forma da embalagem, que fica de pé sobre a tampa, pode ser facilmente manipulada e aberta, concentrando as informações mais importantes na frente. A ergonomia na leitura determinou a escolha de fontes de ampla legibilidade, em tamanhos hierarquizados de acordo com a relevância das informações. Um cartão removível contendo os usos e efeitos colaterais da medicação fica “guardado” na parte de trás do frasco. Aneis de cores variadas presos ao gargalo ajudam a identificar rapidamente a quem pertence cada remédio no ambiente da casa.
Esse projeto é um caso de sucesso, pois incrementou as vendas das farmácias da Target, promoveu uma melhora na saúde da população e também trouxe para a designer um reconhecimento importante no processo de transição da escola para o mercado. Nesse ponto, é preciso reconhecer que a visibilidade proporcionada aos alunos pela School of Visual Arts é invejável.
Dois outros projetos interessantes mostrados foram um simpático conjunto de tigelas cerâmicas e um conjunto de talheres e louças. As cerâmicas são empilháveis, dotadas de elementos gráficos coloridos, que indicam as medidas das porções dos alimentos, destinam-se a pessoas com problemas de obesidade. O segundo projeto que chamou a atenção é uma coleção de talheres e louças para pessoas com deficiências físicas, que tem como intuito não apenas torná-las capacitadas para a função de comer, como também proporcionar uma melhor experiência da refeição, através do uso de utensílios com maior valor estético do que aqueles normalmente produzidos para esse público.


Mesü · Design: Jennifer Panepinto


Sunniva · Design: Sunniva Djupedal de Villiers
Riscos da “aventura produtiva”
No artigo Jovens objetos velhos, Ethel Leon alerta para os riscos da “aventura produtiva”:
(…) são despejados, anualmente, milhares de jovens designers no mercado de trabalho, incapaz de absorvê-los a todos. É claro, as indústrias precisam de ‘criativos’, mas muitas delas mudaram-se para a China. É fato que toda padaria de esquina precisa de ‘branding’, mas uma marca ou um inteiro sistema visual podem ser gerados por default por jovens secundaristas hábeis em programas de computação gráfica. Portanto, muitos jovens designers diplomados, sem querer submeter-se às agruras do mercado de computeiros, decidem tornar-se ‘empresários de si próprios’. Tudo isso é acalentado por uma literatura de auto-ajuda empresarial de estímulo às pequenas empresas, às oportunidades do mundo sem carteira assinada e sem direitos previdenciários.
Os jovens têm idéias, muitas delas originadas em seus trabalhos de conclusão de curso, e lançam-se na aventura produtiva. Só que não têm instrumentos de investimento de uma empresa. A saída: pequenos objetos engraçados, muitas vezes formados por componentes industrializadas de baixo custo, que têm uma atratividade, pois se espelham na produção artesanal exemplar de alguns stars do design que adotam estratégias semelhantes.
E assim se forma a objetística, curioso amontoado de peças sazonais, muitas delas adeptas do fun-design (a exemplo da produção da empresa italiana Alessi) e que povoa feiras, feirinhas, lojinhas e butiques de museus e atinge, geralmente, um público também jovem, num circuito que se conecta ao do turismo e ao dos “eventos”.
(…) No entanto, a objetística está longe de ser uma saída para o design brasileiro e de tantos países periféricos, onde ainda há tanto de essencial a fazer.
A crítica certeira de Ethel Leon à onda de objetos efêmeros, desnecessários e de baixa qualidade alinha-se com os critérios de Lita Talarico e Steven Heller, que ressaltam:
o termo ‘designer empreendedor’ corre o risco de se tornar uma expressão da moda, que ilude qualquer um que desenvolve e vende qualquer bugiganga. De fato, há um rigor envolvido nisso. O designer empreendedor deve se comprometer em criar (e às vezes falhar) e achar um nicho para um produto que tenha algum valor (ao menos para certo público). Fazer qualquer coisa engraçada aleatória e colocá-la numa prateleira não é suficiente.
Certamente esta é uma discussão complexa: quais os limites que diferenciam uma bugiganga de um bom produto?
O exemplo que fica desses designers empreendedores é a disposição que mostram para inventar novos e valiosos conteúdos, aumentando o alcance e a responsabilidade de sua atuação profissional.

In the traditional professional practice, designers are hired to solve problems brought by clients. One alternative to this model are the self-initiated projects, when the designer is his own client: he creates products or solutions to perceived problems and offers it to the market. So design entrepreneurship does not necessarily mean running a large office.
This shift in the traditional model, where the designer does not only “package” products, but is active in the conception of new contents is the subject-matter of The designer as author, a graduate program co-chaired by Lita Talarico and Steven Heller, at School of Visual Arts in New York. Lita Talarico was in Sao Paulo for the Brazil Design Week, giving a lecture in the forum Design education: the university and the reality of the market. She presented some projects created by students from SVA and also a selection of works done by professional designers that, according her criteria, are entrepreneurs. These ideas are part of her book The design entrepreneur: turning graphic design into goods that sell, published in 2008 by Rockport Publishers.
Arts and crafts
Creating and producing objects for the market is not a new idea. In the late nineteenth century, artisans of Arts and Crafts movement led by William Morris manufactured a wide range of items – furniture, books, printed fabrics etc. – in response to moral and social problems generated by industrialization. Inspired by John Ruskin, Morris proposed the resumption of union between the arts and the crafts in order to overcome the mediocrity of industrial products and the isolation of the artist in relation to production.
Today, several factors can justify this trend to entrepreneurship. Ellen Lupton, one of the professionals featured in the book The design entrepreneur, says that the changes in the field of graphic design after the popularization of computer use in the 1990s – with amateurs taking market share and an increasing interest from general public in all aspects of design – made professionals rethink their roles.
Design entrepreneurship currently going on is very eclectic. The selection of professionals featured in the book include examples of:
– Illustrators-authors as Seymour Chwast, Maira Kalman and Christoph Niemann;
– Designers creating products with graphic surfaces, as Charles Spencer Anderson;
– Industrial designers like Yves Behar;
– Digital type foundries like Carlos Segura’s T26;
– Agents of design education and social change as UnderConsideration, Ellen Lupton and Winterhouse.
According to Lita Talarico, the entrepreneurial choice offers the designer not only new and diverse financial opportunities, as it brings the reward of being the author of the whole work, instead of submitting visual projects to unpleasant contents. Moreover, the creative impulse that is not welcome in the corporate environment can come true in a self-generated project.

Design: Maira Kalman

Design: Charles Spencer Anderson
Students engaged in social change
The program The designer as author emphasizes projects that will help to promote some kind of positive social change. Their greatest accomplishment is a prescription drug labeling and packaging system created by student Deborah Adler in 2002. She noticed that labels with confusing visual communication were causing serious problems for the elderly, for taking the medication incorrectly.


Target ClearRx · Design: Deborah Adler
Adler took this challenge to her Master’s thesis. Later, in 2005, the project was purchased and developed in large scale by Target Pharmacy. The system then named ClearRx is characterized by the use of red color bottles, which gives it a strong identity – as a Target’s signature (the brand is also red). The shape of the bottle, which stands upside-down on its cap, can be easily handled and open, concentrating the most important information on the front. Ergonomics concerning reading determined the choice for clear type, with sizes formatted according to information hierarchy. A removable card containing the uses and side effects of medication is tucked in a sleeve on the back of the bottle. Rings of various colors attached to the neck help to quickly identify who owns each drug in the home environment.
This project increased sales at Target Pharmacy, improved population health and also brought an important recognition to the designer in her transition from school to the market. Concerning this aspect, we must recognize that the visibility offered to students by the School of Visual Arts is enviable.
Two other interesting projects shown were a neat set of stacking ceramic bowls with printed graphics on it, for measuring portions of food. The product is aimed for people with diet problems. The other project that has drawn attention is a dinnerwear collection for people with disabilities. Its design purpose is not only to enable who is disabled, but to provide a better meal experience through aesthetics.

Mesü · Design: Jennifer Panepinto


Sunniva · Design: Sunniva Djupedal de Villiers
Risks of adventurous enterprise
In the article Young old objects, Ethel Leon warns against the adventurous enterprise:
(…) every year, thousands of young designers are dropped in the market, but there is no room for everyone. Of course industries need ‘creatives’, but many of them had moved to China. Every bakery on every corner needs ‘branding’ indeed, but a brand or an entire visual system can be generated through templates by high school students with keen computer skills. Therefore, many graduate young designers that refuse to deal with the distress of a market of amateurs, decide for a self enterprise. All this is nurtured by books that stimulates small businesses – the opportunities that lie in a world without a formal contract or pension rights.
Young people have ideas, many of which generated in their graduation projects, and plunge into an adventurous enterprise. But they lack the investment tools of a company. The solution: funny small objects, often made with of low cost industrial components, that have an attractive look, because they mirror the examples of small scale production of some design stars that adopt similar strategies.
And thus a new urban handicraft is formed – curious jumble of seasonal pieces, many of them with the looks of fun-design (being the Italian company Alessi a model to follow), that populates street markets, small shops and museum shops, reaching usually also a young audience, in a circuit that is connected to tourism and “events”.
(…) However, this new urban craftwork is far from being a solution for Brazilian design and many other peripheral countries, where there is still a lot of essential things to do.
The well-aimed critique made by Ethel Leon against the wave of ephemeral, unnecessary and poor objects is aligned with Lita Talarico’s and Steven Heller’s criteria:
The term ‘design entrepreneur’ runs the risk of becoming a new buzzword, a catchall for anyone who develops and sell any designed trinket. In fact, there are rigors involved. A design entrepreneur has to be committed to crating (and sometimes failing) and finding a niche for a product that has some value (at least for the audience) and is able to see it reach that audience. Just making some fun doodad and putting it on a shelf is not enough.
Surely this is a complex discussion: which are the boundaries that distinguish a good product of a designed trinket?
The example that lasts, given by these design entrepreneurs, is their will to invent fresh and valuable contents, widening the reach and the responsibility of their professional roles.

Ótimo post!
Interessante notar que os exemplos de objetos criados pelos alunos são destinados a usuários muito específicos, ao contrário do “fun design”, cujo objetivo (arrisco dizer) é alcançar público maior e diversificado – se tornar “pop”, sucesso de vendas para um público “hypado”.
A especificidade de público com necessidades específicas pode ser um caminho para um design empreendedor bem sucedido, talvez?
Escrito por Dd em 10.12.2009 às 00:32
Acho que o melhor que se tira desses exemplos empreendedores é a possibilidade dos designers exercerem maior influência no que está sendo produzido e por que – em vez de ficarmos restritos apenas ao “como” fazer. Desenvolver projetos visuais para conteúdos infames é uma tarefa ingrata que acabamos nos acostumando a cumprir, mas deu para ver que há alternativas para isso. E solucionar problemas de públicos com necessidades específicas torna tudo ainda mais relevante e menos “fun”.
Escrito por Sara Goldchmit em 10.12.2009 às 09:33
Olá sara,
excelente exposição sobre o assunto, ótima participação Ethel a respeito da discussão design e empreendedorismo. Realmente não podemos tratar o tema com superficialidade, a investida de jovens designers com suas pequenas criações esta longe de se constituirem no caminho para o design brasileiro.
Não obstante, o ensino de design voltado para o atendimento da industria nacional tbem não é suficiente, vide as inúmeras iniciativas desde os anos 90 para apresentar o design ao empresário brasileiro. Agora parece haver um “despertar” para o tema, mas tardio se comparado com outros países (que nos diga a China e suas 300 novas escolas de design).
Considero que, mais do que proporcionar aos jovens designers o embasamento técnico-conceitual para a prática da profissão, o empreendedorismo pode auxilia-los a observar as oportunidades de mercado… Bem estou escrevendo do celular, sentado num voo p/ são Paulo e o piloto acaba de solicitar o desligamento… Abraço
Escrito por Marcos Breder em 10.06.2010 às 12:44
Olá novamente!
Aproveitei uma parte do vôo para fazer o desfecho da explanação anterior. Na realidade, entendo o tema empreendedorismo e design não somente como um meio de incentivar que os proprios designers produzam suas criações. Compreendo o tema como uma mudança ou como um vetor de uma mundanca de comportamento e de mentalidade. Tirar o designer da posição de “obediência”, para uma de curiosidade e de vontade de realizar. Significa educar os futuros profissionais para criar, mas com maior ênfase no pensar que no fazer…
Estamos vendo de perto a entrada do Brasil numa década de ouro, com oportunidades nunca antes vistas. Desde o final de 2009 somos “a bola da vez” segundo os mais conceituados estudiosos mundiais. E o que isso trará de bom? E de ruim?
Penso que o tema é muito amplo, com muitos desdobramentos… Algum dia conversamos pessoalmente, terei o maior prazer de expor minha visão sobre futuro do tema “design e empreendedorismo”!
Cordial abraço,
Escrito por Marcos Breder em 10.06.2010 às 14:13
ola marcos,
estou fazendo um tarbalho sobre designer emprendedor e achei muito interessante sua matéria.
Gostaria de saber se você tem como me ajudar em relaçõa a CARACTERISITCAS, BUSCA DE OPORTUNIDADES, EXEMPLOS DE AUTAÇÃO DE DESIGNER EMPREENDEDOR.
Preciso disso urgente, tenho que entregar esse trabalho no dia 16.
Será que você tem como me ajudar?
obrigada,
natalia
Escrito por natalia em 13.07.2010 às 12:15