© Imagens Odiléa Setti Toscano
Mais conhecida pelo design ambiental dos painéis e murais das estações Paraíso, Jabaquara, Santana e São Bento do metrô de São Paulo – ou por ter sido professora de programação visual na Faculdade de Arquitetura da USP durante muitos anos – Odiléa Toscano já havia ocupado uma posição discreta, porém marcante, no panorama do design gráfico brasileiro nos anos 1960.
No conjunto da sua obra de design impresso, destaca-se a programação visual das capas da coleção Jovens do mundo todo. A série de literatura infanto-juvenil publicada pela Editora Brasiliense rendeu-lhe um prêmio na 1ª Bienal Internacional do Livro e das Artes Gráficas de São Paulo, em 1961, e divulgação internacional em revistas especializadas. Entre os trabalhos realizados no final dos anos 1950 e na década de 1960, sobressaem-se ilustrações para o Suplemento Literário do jornal O Estado de S. Paulo e o design de algumas capas para a revista Visão. Nos anos 1970, foram destaque as ilustrações para os fascículos Nossas crianças, da Editora Abril, para a revista Bondinho e para a coleção de livros didáticos Criatividade em língua portuguesa.

Ilustração para o Suplemento Literário do jornal O Estado de S. Paulo (1957)
Odiléa teve um desenho publicado pela primeira vez no Suplemento Literário do jornal O Estado de S. Paulo, em 1957. Ao ver o resultado das primeiras ilustrações impressas, percebeu que os clichês de metal renderiam melhor com desenhos de traços mais grossos, para que a impressão saísse mais escura e mais precisa. Assim, passou a desenhar com mais rigor, muitas vezes suprimindo a linha e construindo planos a partir de tramas feitas com bico-de-pena e nanquim. Os condicionantes da reprodução gráfica industrial encaminharam o seu gesto para a execução de um traço firme, paradoxalmente delicado, que a acompanhou dali em diante como a sua marca registrada. As tramas e texturas foram incorporadas como elementos gráficos que resolvem, em um só tempo, a caracterização das superfícies e o problema da qualidade do desenho impresso.

Ilustração para o Suplemento Literário do jornal O Estado de S. Paulo (1961)
O interesse particular na série de ilustrações realizadas para O Estado de S. Paulo reside no fato de que, no jornal, Odiléa esteve mais livre para buscar uma subjetividade poética do que em outros trabalhos de cunho mais comercial. Os personagens, o espaço íntimo da casa e os objetos que habitam o cotidiano – observados sob um olhar crítico e por vezes irônico – afirmaram-se como temas fundamentais desde o início da sua produção.

Capa da coleção Jovens do mundo todo (1961)
O design da coleção Jovens do mundo todo revela, ao longo das quase quarenta capas produzidas, a maioria dos critérios e processos criativos de Odiléa. Um primeiro aspecto a ser mencionado é o comprometimento em colocar no desenho certos vínculos que localizam o assunto em determinado lugar e determinado tempo. Para tanto, a pesquisa em fontes visuais sobre os mais variados temas e períodos históricos incorporou-se como parte de seus procedimentos. O resultado que se vê, especialmente nas capas da coleção Jovens do mundo todo, é um desenho que fala de outros desenhos, lembrando que o momento presente decorre sempre de um passado, e que os homens estão interligados pela história das sociedades.
Verifica-se também o empenho em considerar a peça gráfica na sua totalidade. Os livros da coleção Jovens do Mundo Todo são entendidos como objetos tridimensionais e as capas, portanto, tratadas como um plano horizontal contínuo. A representação dos espaços reais no papel é para Odiléa um desafio constante. Ela não segue as leis da perspectiva clássica, mas obedece, antes de tudo, as necessidades gráficas da composição.

Capa da coleção Jovens do mundo todo (1960)
Ainda com relação à sintaxe, Odiléa trabalha principalmente utilizando cores chapadas para construir os planos espaciais, e emprega o traço preto firme nos elementos que escolhe detalhar. O corte é também uma característica marcante da linguagem de Odiléa, seja para a construção de planos de cor, seja no detalhamento minucioso das tramas recortadas em papéis coloridos. É importante ressaltar que a representação de estampas, tramas e texturas não é apenas um recurso recorrente de linguagem, mas fundante de todo o seu raciocínio gráfico. Essa aparente ornamentação não comparece gratuitamente; é veículo para a comunicação eficaz da idéia, de maneira sedutora, inclusive.
Nas capas da revista Visão, também é possível identificar a problematização do campo da capa, onde o uso da sangria é colocado em evidência. A cena representada parece ser um recorte retangular da realidade – visível ou imaginária – que envolve o assunto em pauta. Com um design ancorado na ilustração, Odiléa utiliza a figura para estruturar o espaço da capa.

Capa para a revista Visão (1962)
A modernização dos processos gráficos no fim da década de 1960 e nos anos 1970, assim como a ampliação e diversificação da oferta de materiais para layout conduziram a linguagem de Odiléa a novos patamares de expressividade. Como se vê nas ilustrações para a revista Bondinho, os novos materiais como letraset, filmes coloridos transparentes, canetas hidrográficas etc., deram a resposta exata para o que ela estava buscando, pois o recorte e a colagem manual – recursos que sempre fizeram parte de seu repertório – passam então a contar com maiores possibilidades de cores, novas texturas e transparências. Em consonância com a linha informal da Bondinho, Odiléa pôde assumir o bom humor de maneira mais irreverente do que nos demais trabalhos. Além disso, o aspecto intuitivo das colagens foi deixado mais evidente, mostrando que, muitas vezes, é no jogo do próprio fazer que se descobre como fazer.

Ilustração para a revista Bondinho (1971)
Nos fascículos Nossas Crianças, a transmissão de conhecimento através do desenho deveria ser, antes de mais nada, didática e cientificamente correta. Mais uma vez nota-se uma atitute inevitavelmente comprometida com os temas que, nesse caso, giravam em torno dos problemas infantis de saúde. Desfrutando de certa liberdade dentro das restrições dadas pelos assuntos, Odiléa conseguiu enxergar o potencial gráfico que cada matéria poderia propiciar. O traço em nanquim continuou a ser empregado nos contornos das figuras, assim como as tramas geradas pelo seu emaranhado. Mas, com a utilização dos novos materiais disponíveis mencionados anteriormente, em especial os filmes transparentes coloridos, as ilustrações ganham maior variedade tátil e profundidade.


Fascículos Nossas Crianças (1973)
Para a elucidação de aspectos da doença ou de sua cura, o caráter narrativo dos desenhos é comum, assim como o uso de setas e palavras – como ocorre habitualmente nos infográficos. De maneira semelhante à coleção Jovens do Mundo Todo, em Nossas Crianças verifica-se, novamente, a força das escolhas cromáticas precisas, que auxiliam não apenas a comunicação, mas também a construção do espaço gráfico de maneira muito coerente. Nesses fascículos, é impossível não se surpreender pelo vigor do desenho sintético, claro e repleto de significados, que cresce e estrutura a página – notável também no design dos livros didáticos da série Criatividade em língua portuguesa.

Coleção Criatividade em Língua Portuguesa (1978)
Vê-se que, desde cedo, o desenho de Odiléa esteve condicionado pelos meios industriais de reprodução gráfica e pelos contextos de mercado para os quais destinavam-se os produtos ilustrados. A função comunicativa da imagem foi sempre considerada primordial. Ao mesmo tempo, nota-se no conjunto da obra um esforço em considerar a peça gráfica na sua totalidade: seja em uma capa de livro, pensada como objeto tridimensional, seja em uma página dupla de revista, onde a figura conforma o campo. Todos esses fatores mostram como o seu desenho se aproximou da noção de projeto, representada pela palavra design.
A força da linguagem gráfica de Odiléa reside na união consciente do seu projeto pessoal de desenho – com todas as referências, estímulos e procedimentos que lhe são tão caros – ao projeto social inerente à atividade do design.
Para saber mais:
GOLDCHMIT, Sara Miriam. Odiléa Setti Toscano: do desenho ao design. São Paulo: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo; Universidade de São Paulo, 2008. Dissertação de Mestrado. Clique aqui para download.
© Images Odiléa Setti Toscano
Best known by the environmental design of panels and murals for the subway stations Paraíso, Jabaquara, Santana and São Bento, in São Paulo – or to had been professor of visual communication in the Faculty of Architecture at University of São Paulo for many years – Odiléa Toscano had occupied a discreet but remarkable place in the brazilian graphic design scene during the 1960s.
Considering her comissioned work in print design, the book jackets for the collection Jovens do mundo todo are a true highlight. With this series of children’s literature published by Editora Brasiliense she won a prize at the 1st International Biennial of Book and Graphic Arts of São Paulo, in 1961, and some international recognition in design magazines. In the late 1950s and during the 1960s, the works that stand out are illustrations for the literature section of O Estado de S. Paulo newspaper and covers for Visão magazine. From 1970s, most important assignments were illustrations for Nossas crianças encyclopedia, published by Editora Abril, illustrations for Bondinho magazine and the textbook collection called Criatividade em língua portuguesa.

Ilustration for O Estado de S. Paulo newspaper (1957)
Odiléa had a drawing printed for the first time in the literature section of O Estado de S. Paulo newspaper, in 1957. As she saw the first printed samples, she realized that the clichés of metal would offer better results if the lines were thicker. She then began to trace in a more accurate way, often removing the line and building plans with detailed textures made with indian ink. The restrictions imposed by the graphic industry led her gesture to the execution of a more consistent trace, paradoxically delicate, that became her trademark. Patterns and textures were incorporated as graphic elements to solve, in one time, the characterization of surfaces and the quality of the printed drawing.

Illustration for O Estado de S. Paulo newspaper (1961)
The particular interest in the series of illustrations for the O Estado de S. Paulo relies on the fact that, in the newspaper, she had more freedom to seek a poetic subjectivity than in other commercial works. The characters, the intimate space of the house and the objects that inhabit daily life – observed under a critical and sometimes ironic eye – were affirmed as key issues since the beginning of her career.

Book jacket from the collection Jovens do mundo todo (1961)
Over the nearly forty covers produced for the collection Jovens do mundo todo, most of her creative processe is shown. A first aspect to be mentioned is the commitment to inform, via drawing, features of a certain period of history and of a certain place. What can be seen is a drawing that speaks of other drawings, recalling that present is a consequence of the past, and that men are linked by history of societies.
There is also a commitment to consider the graphic piece in its entirety. Books are perceived as three dimensional objects and its jackets, therefore, treated as horizontal landscapes. The representation of real space in the paper is a constant challenge for Odiléa. She has choosen not to follow the laws of classical perspective, but the needs of graphic composition.

Book jacket from the collection Jovens do mundo todo (1960)
Odiléa uses paper cuts to fill large aereas of the image with colors, or to build detailed patterns. It is important to remind that the representation of patterns and textures is not only a recurrent feature, but the foundation of her reasoning. This ornamentation is not arbitrary, but a vehicle for effective communication of the idea.
The modernization of the graphic industry in the late 1960s and during 1970s, as well as the introduction of a whole new set of art supplies – Letraset, Pantone films, markers – pushed Odilea’s work to further levels of expressiveness.
As seen in illustrations for the magazine Bondinho, those new materials gave her the perfect answer to what she was looking for. Her already familiar procedures, as manual cutting and pasting, then began to count on greater possibilities of colors, new textures and transparencies. According to the informal tone of Bondinho, Odiléa could assume her good humor in a more irreverent way than in other assignments. In addition, the intuitive aspect of the collage here is left more evident, showing that often it is during the play that one finds out how to play.

Illustration for Bondinho magazine (1971)
Regarding the Nossas crianças encyclopedia, the transmission of knowledge through design was supposed to be, first and foremost, didactic and scientifically correct. Again her atitute is inevitably committed to the subjects which, in this case, refer to children’s health problems. Enjoying some freedom within the restrictions given by the themes, Odiléa was able to identify the graphic possibilities each subject could provide. By using those new available art supplies mentioned above, especially the Pantone films, illustrations acquired a brighter look and greater depth. It is hard not to be surprised by its vitality and freshness. The usage of the illustration to organize the whole piece can also be seen in the covers of Visão magazine and in the textbook collection Criatividade em língua portuguesa.


Nossas crianças encyclopedia (1973)

Cover of Visão magazine (1962)

Textbooks Criatividade em língua portuguesa (1978)
Since the early days in the design field, Odiléa’s draftsmanship was determined by the means of reproduction in graphic industry, and by the audience to whom she was communicating. At the same time, she usually considered the graphic piece in full: either a book cover, designed as three-dimensional object, or a double-page in a magazine, where the illustration structures the piece. All these factors show how her drawing has turned into design. The strength of the graphic language of Odiléa lies in her ability to unite her personal drawing style with the social meaning inherit to design profession.

Love these illustrations!
Please – when will we get an english version!?
Want to be able to read…. :)
Ha de najs!
/CJH
Escrito por CJH em 13.08.2009 às 17:04
Não conhecia e gostei muito do trabalho da Odiléia. O que mais me impressiona nestes artistas gráficos pré era digital, é que eles faziam tudo isso, em um momento que as tecnologias eram muito escassas. Parabéns pelo resgate.
Escrito por Ericson Straub em 26.08.2009 às 10:46
ACHEI DEMAIS ESSAS OBRAS …
ADORO ARTE E VIVO DESENHANDO E PINTANDO
EU AMO ISSO …
ESTE É O MELHOR SITE DE BUSCA PARA TRAMAS GRÁFICAS
E A MELHOR MANEIRA DE SE EXPRESSAR É PINTANDO … FAZENDO ARTE
POIS NOS DEIXA MAIS LIVRE , LEVE E SOLTOS!
Escrito por BIA em 18.05.2010 às 16:47